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segunda-feira, 23 de março de 2015

“Pagamento de propina na Petrobras transcende o PT e o PSDB”

Nem durante o Governo do tucano Fernando Henrique Cardoso, como disse a presidenta Dilma, nem no primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, como afirmou o delator da Lava Jato Pedro Barusco. Nenhum dos dois partidos foi pioneiro quando o assunto é corrupção na Petrobras, segundo Pedro Henrique Pedreira Campos, professor do departamento de História da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

Campos é autor do livro 'Estranhas Catedrais – As Empreiteiras Brasileiras e a Ditadura Civil-Militar' (Editora da UFF, 2014), que mostra como as mesmas construtoras que hoje estão no banco dos réus da operação Lava Jato já pagavam propinas e se organizavam em cartéis durante o regime militar. E até antes.

Pergunta. Com a Lava Jato há um debate sobre a origem da corrupção na Petrobras. Quando começou a corrupção na estatal?

Resposta. Existe um jogo de empurra para ver de quem é a culpa, e isso fica muito à mercê dos conflitos políticos atuais. O problema transcende as principais siglas partidárias, PSDB e PT. A prática de pagamento de propina na Petrobras vai além disso. Pode ser que tenha surgido no governo do FHC e do Lula um esquema para financiamento de campanha. Este tipo específico de procedimento talvez tenha sido criado nestes governos, com o envolvimento de diretores da estatal e repasse para partidos. Mas isso é apenas um indicativo de quão incrustadas na Petrobras estão estas construtoras. Muitas dessas empresas prestam serviço para a estatal desde 1953, e existem registros de que essas práticas ilegais já existiam nesta época.

P. A corrupção é a exceção ou a regra no mercado das construtoras?

R. A impressão que tenho, e temos indícios disso, é de que a prática de cartel é institucionalizada no mercado de obras públicas. As vezes existem conflitos, mas o que impera é o acordo, os empresários não querem uma luta fratricida, porque isso reduziria as taxas de lucro deles, então eles tentam dividir os serviços. E isso remonta há muito tempo, desde a década de 50, quando o mercado de obras publicas no Brasil começa a se firmar.

P. Qual era a situação das grandes construtoras antes ditadura?

R. Na segunda metade da década de 50, com a construção de Brasília no Governo de Juscelino Kubitschek e a as obras de infraestrutura rodoviária, as empresas começaram a prosperar. Antes de JK elas tinham apenas alcance local e regional: eram empreiteiras mineiras, paulistas e cariocas que realizavam obras em seus respectivos Estados. Naquele período elas não tinham sequer o domínio sobre técnicas para obras hidrelétricas, por exemplo.

P. Como era a relação das empreiteiras com os militares?

A Odebrecht, que hoje é uma gigante do mercado, era muito periférica antes da ditadura. Era uma pequena empreiteira nordestina, bastante secundária"
R. Elas foram sócias da ditadura. Nisso a Camargo Corrêa se destaca. O dono era muito próximo do regime, e ela financiou a Operação Bandeirante, que perseguiu militantes de esquerda no país. As empreiteiras tiveram uma participação importante no golpe de 1964, que foi um golpe civil-militar. Várias associações de empresários foram antessalas do golpe, que contou com uma participação intensa do setor de construção. E depois elas colheram os frutos deste apoio.

P. Qual construtora que mais cresceu durante a ditadura?

R. A Odebrecht, que hoje é uma gigante do mercado, era muito periférica antes da ditadura. Era uma pequena empreiteira nordestina, bastante secundária. Não participou das obras do plano de metas do JK, nem das rodovias, mas ela cresce de maneira impressionante durante o período de exceção. Em grande parte porque ela tinha uma presença muito forte junto à Petrobras, que na época tinha muitas obras no Nordeste. Quando a estatal começou a crescer, a Odebrecht foi junto. E à partir daí ela conseguiu o contrato do aeroporto do Galeão (RJ).

P. O que deu força às empreiteiras brasileiras na ditadura?

R. O decreto presidencial 64.345 de 1969 estabeleceu uma reserva de mercado paras empresas brasileiras, que caiu como uma luva para elas, que não tinham como concorrer com as estrangeiras. [Segundo o texto, “só poderão contratar a prestação de serviços de consultoria técnica e de Engenharia com empresas estrangeiras nos casos em que não houver empresa nacional devidamente capacitada”] O decreto facilita a formação de cartel entre elas, a aumentou muito o volume de recursos e obras que as construtoras passaram a obter de contatos públicos. Com esse dinheiro elas vão adquirir tecnologia para realizar outras obras, como aeroportos supersônicos, as usinas nucleares, etc. Com o decreto elas passaram a tocar as obras do chamado ‘milagre econômico’ da ditadura, o que permitiu que elas obtivessem lucros altíssimos e aprofundassem as práticas de cartel e corrupção no Governo.

P. Não havia investigação destas práticas irregulares na ditadura?

R. [Essas práticas] não eram coibidas. Muitas vezes obras eram contratadas sem concorrência, isso era muito comum na época. As investigações sobre práticas de cartel eram raras, os mecanismos de controle estavam amordaçados, não havia Ministério Público e a imprensa era censurada.

P. Existe algum indício de que durante a ditadura haviam pagamentos de propina?

R. Naquele período vinham menos denúncias a público, mas isso não quer dizer que não houvesse corrupção. Há indícios que havia um sistema de propina institucionalizado naquela época. Documentos do Serviço Nacional de Informação indicam que haviam pagamentos irregulares, e que alguns agentes públicos seriam notórios recebedores de propina e comissões. Isso era muito comum e corriqueiro no período. Com o fim da ditadura isso passa a vir mais a público.

“Quem faz o orçamento da republica são as empreiteiras”, disso o então ministro da saúde Adib Jatene em 1993
P. Com a democratização, o modus operandi das empreiteiras mudou?

R. Houve uma mudança bastante pronunciada, que segue a mudança da organização do Estado. Durante a ditadura as atenções das empreiteiras estavam voltadas para o poder Executivo – ministérios e empresas estatais, principalmente. E quando o país se abre para a democracia a correlação de forças muda, e elas tentam se adaptar. Elas passam a atuar junto às bancadas e aos partidos políticos, porque o Legislativo ganha força. Elas passam a ser ativas para obter emendas parlamentares e verba para obras. Existe inclusive no Congresso uma bancada da infraestrutura, e eles são bastante afinados com o desenvolvimento das empresas.

P. Existe um mito de que durante a ditadura a corrupção era menor. Isso se comprova factualmente?

R. Eu diria que a corrupção era mais difundida e generalizada, pela falta de mecanismos fortes de fiscalização.

P. As empreiteiras ainda influenciam as decisões do Estado?

R. Acho que sim, elas são muito poderosas. Estamos vivendo um momento singular, elas estão bastante acuadas, mas elas são muito importantes no Parlamento, no processo eleitoral e para pautar as políticas públicas. Vimos no governo Lula a retomada de vários projetos que foram concebidos durante a ditadura, como a transposição do rio São Francisco e a construção de Belo Monte, por exemplo. E isso remete ao poder que esses empresários continuam tendo no Governo. “Quem faz o orçamento da republica são as empreiteiras”, disso o então ministro da Saúde Adib Jatene em 1993. O fato é que os empresários fizeram uma transicão de muito sucesso para a democracia. Elas haviam se apropriado de parte do Estado durante a ditadura, e continuam lá na democracia.

P. Os acordos de leniência que o Governo quer assinar com as empresas da Lava Jato são uma ferramenta que pode mudar a maneira das empreiteiras atuarem?

R. Historicamente elas já estiveram envolvidas em vários escândalos. E a lógica da política brasileira é colocar panos quentes e continuar adiante. A linha do governo é clara: estão na defesa declarada dessas empresas. Para mudar a relação do Estado com as empresas no Brasil seria preciso uma mudança profunda, repensando o sistema de financiamento eleitoral, e criando alternativas às empreiteiras privadas no país.

 fonte: EL País Brasil 

quarta-feira, 11 de março de 2015

“É o tempo da travessia...

Raíla Maciel

... e se não ousarmos fazê-la teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos”. 


A frase clássica de Fernando Pessoa já diz muito para os que sabem ler “além das palavras”; assim como o livro de Willian P. Youg – mais conhecido pela sua obra A Cabana.

A frase e o livro trazem sugestões desafiadoras, que podem até assustar quem ainda não se sente preparado para fazer essa tal travessia da vida. Mas, se você é um desses, não se preocupe, pois a experiência mostra que tudo acontece na hora certa.  Eu, por exemplo, ganhei esse livro no Natal de 2013, quando nem imaginava as reviravoltas que estavam por vir. Mais de ano passou até que resolvesse tirá-lo da estante. E não poderia haver momento mais ideal para absorver as lições dessa obra.

A Travessia conta a história de Tony, em empresário rico, frio e solitário que só confiava em pessoas que já estavam mortas. Ele sofreu um AVC e ficou em coma. Enquanto seu corpo estava na cama de um hospital entre a vida e a morte, o espírito de Tony viveu experiências inacreditáveis (como o encontro com Jesus, em pessoa), que o confrontaram com diversos conceitos que ele construiu ao longo da vida, que o afastaram da divindade e de tudo que ele amava.

Tony, que até então acreditava que tudo acabava com a morte, se depara com o que preferia ignorar e é levado a rever suas ideias. Nesse processo, o personagem passa por momentos de desespero, pois vê suas bases sendo abaladas e destruídas; conhece as experiências de outras pessoas que se entregam ao que ele mais repelia; e é levado assim a aceitar a verdade incontestável de que existe um Deus que olha por nós, ainda que não queiramos reconhecer a Sua presença e nos consideremos fortes e suficientes demais para aceitar algo superior a nós mesmos.

Tony acreditava em uma realidade que não era a Verdade. Esse era o seu inferno. Nós também vivemos nossos infernos ao construir muralhas, quando temos dores; ao supervalorizar o sofrimento; ao resistir à mudança; permanecer no erro e, principalmente, ao negar o que é parte de nós.

Um homem de 45 anos tinha feito do seu próprio coração um deserto, uma terra tão infértil, onde flores não cresciam e onde só Jesus, com seu Amor incondicional, conseguiu enxergar um potencial positivo. Nós também fazemos isso muitas vezes até sermos confrontados com as duras circunstâncias que nos obrigam a mudar. “Uma transformação sem esforço, nem dor, sem sofrimento, nem sensação de perda é apenas uma ilusão de verdadeira mudança”. Por essa frase já podemos imaginar o que nos espera.

Para quem se acha mais forte e “protegido” sozinho, fica mais difícil aceitar que faz parte de um Todo, na mesma proporção que a Tríade é uma Unidade. A parte consoladora é saber que essa transformação, embora dolorosa, acontece com e pelo Amor divino que não nos abandona e é paciente para esperar que estejamos preparados para a mudança. Tony fez a sua travessia e não ficou à margem de si mesmo, pois apesar dos erros que cometeu e de ter aproveitado muito pouco as oportunidades de crescimento, ele experimentou a misericórdia divina, algo que para um homem dominado pelo Ego era impensável.


O livro é um convite para que façamos a nossa travessia, antes que seja tarde e enquanto ainda podemos ver algumas flores germinarem no terreno do nosso coração. 

O comércio do impeachment

Um empresário de São Paulo que se diz falido pelo Governo do PT. Uma publicitária que mora no Mato Grosso e vive “de renda”. Esses são alguns dos comerciantes que se aproveitam do movimento que pede o impeachment de Dilma Rousseff (PT) para ganhar dinheiro ou para financiar os protestos. Vendendo camisetas a 99 reais e adesivos a 3,50, Marcello Reis, de 40 anos, e Letícia Balaroti, de 28, estão na linha de frente dos produtos anti-Dilma.


Movimento contra Dilma cresce ao mesmo tempo que fica mais radical

Reis é um dos líderes do projeto Revoltados On Line, um grupo formado nas redes sociais que se manifesta contra a corrupção. Nos últimos anos, ganhou notoriedade (e seguidores no Facebook) ao pedir o impeachment da presidenta petista e ao se apresentar ao lado de figuras públicas como o músico Lobão, um feroz crítico do petismo que pediu votos para Aécio Neves (PSDB) no pleito passado.

Para garantir o pagamento da estrutura usada nos protestos promovidos por ele, como um trio elétrico de 20.000 reais,  Reis vende camisetas, bonés e adesivos na internet. Um kit, com uma camiseta polo preta, um boné e cinco adesivos custa de 175 a 195 reais, de acordo com o tamanho. Se for levar só a camiseta com uma faixa presidencial pela metade e os dizeres “Deus, Família e Liberdade”, o cliente gastaria 99 reais. Isso sem contar o frete. “É um preço justo porque o material é importado. É de boa qualidade e não temos uma confecção própria”, explica Marcello Reis, que diz ter fechado uma empresa de segurança da informação porque não quis participar do “jogo sujo do serviço público”.

Não votei no Aécio porque estava viajando. Fiz o adesivo até para compensar essa minha ausência”
Letícia Balaroti

Descrevendo-se como apartidário, e demitido de uma agência de comunicação há dois meses, Reis agora se empenha exclusivamente no movimento que pede a saída de Rousseff do cargo. Ele alega que sua demissão do último emprego ocorrera porque o deputado petista Paulo Pimenta o acusou de fascista e de militante de extrema direita durante o protesto que motivou o fechamento do Congresso Nacional no ano passado. Desde então, Reis passa dia e noite vendendo os produtos anti-Dilma e coletando assinaturas na internet para ingressar com o pedido de impeachment.

“Ele (o deputado) me chamou de neonazista porque sou desprovido de cabelo. Mas estou longe de ser extremista, muito menos nazista. Sou só um cidadão politizado que é contra esta roubalheira toda”, justifica-se.

Outros empreendedores, à primeira vista menos militantes, também parecem ter farejado negócio na onda anti-PT. A camiseteria online NM vende uma camiseta com o mote do impeachment por 39,90 reais. Procurados, os representantes da loja não se manifestaram.

Um empresário de São Paulo que se diz falido pelo Governo do PT. Uma publicitária que mora no Mato Grosso e vive “de renda”. Esses são alguns dos comerciantes que se aproveitam do movimento que pede o impeachment de Dilma Rousseff (PT) para ganhar dinheiro ou para financiar os protestos. Vendendo camisetas a 99 reais e adesivos a 3,50, Marcello Reis, de 40 anos, e Letícia Balaroti, de 28, estão na linha de frente dos produtos anti-Dilma.

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Para garantir o pagamento da estrutura usada nos protestos promovidos por ele, como um trio elétrico de 20.000 reais,  Reis vende camisetas, bonés e adesivos na internet. Um kit, com uma camiseta polo preta, um boné e cinco adesivos custa de 175 a 195 reais, de acordo com o tamanho. Se for levar só a camiseta com uma faixa presidencial pela metade e os dizeres “Deus, Família e Liberdade”, o cliente gastaria 99 reais. Isso sem contar o frete. “É um preço justo porque o material é importado. É de boa qualidade e não temos uma confecção própria”, explica Marcello Reis, que diz ter fechado uma empresa de segurança da informação porque não quis participar do “jogo sujo do serviço público”.


Descrevendo-se como apartidário, e demitido de uma agência de comunicação há dois meses, Reis agora se empenha exclusivamente no movimento que pede a saída de Rousseff do cargo. Ele alega que sua demissão do último emprego ocorrera porque o deputado petista Paulo Pimenta o acusou de fascista e de militante de extrema direita durante o protesto que motivou o fechamento do Congresso Nacional no ano passado. Desde então, Reis passa dia e noite vendendo os produtos anti-Dilma e coletando assinaturas na internet para ingressar com o pedido de impeachment.

“Ele (o deputado) me chamou de neonazista porque sou desprovido de cabelo. Mas estou longe de ser extremista, muito menos nazista. Sou só um cidadão politizado que é contra esta roubalheira toda”, justifica-se.

Outros empreendedores, à primeira vista menos militantes, também parecem ter farejado negócio na onda anti-PT. A camiseteria online NM vende uma camiseta com o mote do impeachment por 39,90 reais. Procurados, os representantes da loja não se manifestaram.

“Sempre fui contra o PT. Antes da eleição eu vendia o adesivo ‘Fora Dilma’. Depois, passei a vender o outro porque demonstrava quem não era o responsável por colocar Dilma lá de novo”, explica Balaroti, que garante não ser filiada a nenhuma sigla política. E, também não votou em Aécio Neves nas últimas eleições. “Não votei no Aécio porque estava viajando tanto no primeiro quanto no segundo turno. Fiz o adesivo até para compensar essa minha ausência”, afirma.

O preço varia conforme a quantidade. A unidade custa 3,50 reais. Mas acima de dez, ela promete dar um desconto. “Meu lucro é muito pequeno. Não preciso desse dinheiro. Nem o frete eu cobro”, diz a publicitária que, apesar do diploma, não atua na área. “Vivo da renda de aluguéis de imóveis da minha família.”

A metade dos pedidos registrados desde o início do ano, segundo Balaroti, veio do Nordeste, um  reduto dos votos petistas nas últimas eleições. Pernambuco, Ceará e Bahia são os principais compradores, definidos pela publicitária como “os petistas arrependidos”.

fonte: El País BR

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

O papa Francisco revisa a teologia do inferno

A Igreja oficial defende desde o século XV que o castigo do inferno destinado aos pecadores é “eterno”, ideia iniciada no século VI com Santo Agostinho. O papa Francisco acaba de revisar tal doutrina católica ao afirmar que a Igreja “não condena para sempre”.

Sem necessidade de grandes encíclicas, com suas falas habituais, Francisco está realizando uma revisão da Igreja para aproximá-la de suas raízes históricas.


Deu o último golpe de graça em um momento um pouco mais solene do que suas conversas habituais com os jornalistas. Dessa vez aproveitou, dias atrás, seu discurso aos novos cardeais para recordar-lhes que o castigo do inferno com o qual a Igreja atormenta os fiéis não é “eterno”.

Segundo Francisco, no DNA da Igreja de Cristo, não existe um castigo para sempre, sem retorno, inapelável.

O Papa jesuíta é formado em teologia, ainda que não tenha feito o doutorado. Dele, talvez hoje o papa renunciante e doutor em teologia, Bento XVI, possa dizer o que afirmava sobre seu antecessor, o papa polonês João Paulo II: que sabe pouca teologia.

Durante um jantar informal em Roma, na casa de um jornalista alemão seu amigo, Ratzinger confessou, efetivamente, aos poucos comensais presentes, que o papa Wojtyla “era mais poeta que teólogo” e que ele, como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cargo que ocupava na época, precisava revisar seus discursos e documentos papais para que não escapasse “alguma imprecisão teológica”.

Francisco é, entretanto, um fiel seguidor da teologia inspirada no cristianismo original, que era, afirma ele, não o da “exclusão”, mas o da “acolhida” de todos, até mesmo dos maiores pecadores. É inspirado por aquele cristianismo antes que a teologia liberal do profeta Jesus de Nazaré fosse contaminada pela severa teologia aristotélica e racional.

Não foi um lapso a afirmação de Francisco aos cardeais de que a Igreja “não condena ninguém para sempre”, o que equivale a dizer que o castigo de Deus não é “eterno”, já que as portas da Igreja da misericórdia e do perdão estão sempre abertas ao pecador.

O Papa que está exigindo aos seus, começando pelos cardeais, a ir ao encontro daqueles que o mundo esquece e marginaliza, ao invés de perder seu tempo nos palácios do poder, sabe que essa doutrina teológica sobre a eternidade e irreversibilidade das penas do inferno, foi sofrendo mudanças ao longo da História da Igreja.

Até o século III a Igreja nunca defendeu a doutrina da eternidade do inferno. Pelo contrário, o exegeta das Escrituras, Orígenes (250) defendeu a doutrina da apocatástase, segundo a qual o Deus dos Evangelho perdoa sempre. Orígenes baseava-se na parábola do Filho pródigo que volta aos braços do pai e é recebido com tanta festa que causa a inveja do irmão bom e fiel.

Somente no século VI começa a aparecer o conceito de “condenação eterna”, sobretudo com Santo Agostinho, o mesmo que defendia que as crianças mortas sem batismo deveriam ir para o inferno. Diante dos protestos das mães dessas crianças, a Igreja criou a doutrina do Limbo, um lugar onde essas crianças “não gozam nem sofrem”, algo completamente estranho aos Evangelhos

Em nossos dias, o falecido papa polaco, João Paulo II, no Catecismo da Igreja Universal nascido das discussões do Concílio Vaticano II, aboliu o Limbo. De acordo com comentários de amigos pessoais do papa, Wojtyla nunca aceitou que uma irmã sua nascida morta e que não pôde ser batizada, pudesse não estar no céu por ter morrido antes de ser libertada do pecado original com o batismo.

A família do futuro Papa era muito católica e, fiel àquela doutrina, nem sequer enterraram o corpo da pequena por não ter podido receber o batismo. Ele mesmo confirmou quando ao falar do túmulo no qual gostaria de juntar os restos de toda sua família, frisou que faltava somente sua irmãzinha, “pois havia nascido morta”. Foi jogada no lixo.

Foi o Concílio de Florença no século XV que rubricou definitivamente a doutrina de Santo Agostinho de um castigo e um inferno eterno. Já no século V, entretanto, São Jerônimo estava convencido de que a doutrina do inferno com a misericórdia de Deus não era conciliável. De todo modo, pedia-se aos sacerdotes e bispos que continuassem defendendo a doutrina tradicional “para que os fiéis, por temor ao castigo do inferno eterno, não pecassem”.

Hoje, o papa Francisco deu um salto de séculos, colocou-se ao lado das primeiras comunidades cristãs ainda embebidas da doutrina do misericordioso profeta de Nazaré, que veio “para salva e não para condenar”.

Os primeiros cristãos sabiam que Jesus havia sido duro e severo com a hipocrisia e com o poder tirano, enquanto abraçava os marginalizados pela sociedade bem como os que a Igreja oficial de seu tempo tachava de pecadores.

Podem parecer minúcias teológicas para os não religiosos, mas são muito importantes para milhões de cristãos que durante séculos sofreram oprimidos pela doutrina de um Deus tirano, sedento de castigo e de castigo eterno.

Lembro que no final dos anos 60, após escrever no jornal espanhol Pueblo um artigo intitulado “O Deus no qual não acredito”, em que defendia que os cristãos precisavam escolher entre Deus e o inferno eterno, já que ambos eram conceitos inconciliáveis, sofri um duro interrogatório do então arcebispo de Madri, Monsenhor Casimiro Morcillo, que me acusou de “ter escandalizado os fiéis”.

Aqui no Brasil, o teólogo da libertação, Leonardo Boff, me contou que há 16 anos o grande escritor e poeta de Pernambuco João Cabral de Mello Neto estava para morrer e, apesar de não ser religioso, estava angustiado naquele momento pela doutrina sobre o medo do inferno, que lhe haviam inculcado na infância. Foi chamado para o tranquilizar. Boff, que foi condenado ao silêncio pelo papa Bento XVI quando este era Prefeito da Congregação da Fé, usou com o escritor as mesmas palavras que agora o papa Francisco usa para assegurar que Deus não condena ninguém para sempre.

Boff disse com humor ao poeta que alguém capaz de escrever a joia literária, social e humana Morte e Vida Severina, merecia indulgência plena na hora de se despedir da vida.

A mudança é copernicana. Hoje é um papa como Francisco que afirma com total naturalidade que o Deus cristão “não condena ninguém para sempre”, que é como dizer que não existem infernos eternos, uma afirmação que há pouco tempo atrás poderia ter servido para abrir um processo contra um teólogo e condená-lo ao ostracismo.

 fonte: El País Brasil