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sábado, 10 de janeiro de 2015

Para entender os atentados terroristas



Por Leonardo Boff

Uma coisa é se indignar, com toda razão, contra o ato terrorisa que dizimou os melhores chargistas franceses. Trata-se de ato abominável e criminoso, impossível de ser apoiado por quem quer que seja.

Outra coisa é procurar analiticamente entender porque tais eventos terroristas acontecem. Eles não caem do céu azul. Atrás deles há um céiu escuro, feito de histórias trágicas, matanças massivas, humilhações e discriminações, quando não, de verdadeiras guerras preventivas que sacrificaram vidas de milhares e milhares de pessoas.

Nisso os USA e em geral o Ocidente são os primeiros. Na França vivem cerca de cinco milhões de muçulmanos, a maioria nas periferias em condições precárias. São altamente discriminados a ponto de surgir uma verdadeira islamofobia.

Logo após o atentado aos escritórios do Charlie Hebdo, uma mesquita foi atacada com tiros, um restaurante muçulmano foi incendiado e uma casa de oração islâmica foi atingida também por tiros.

Que signfica isso? O mesmo espírito que provocou a tragédia contra os chargistas, está igualmente presente nesses franceses que cometeram atos violentos às instituições islâmicas. Se Hannah Arendt estivesse viva, ela que acompanhou todo o julgamento do criminoso nazista Eichmann, faria semelhante comentário, denunciando este espírito vingativo.

Trata-se de superar o espírito de vingança e de renunciar à estratégia de enfrentar a violência com mais violência. Ela cria uma espiral de violência interminável, fazendo vítimas sem conta, a maioria delas inocentes.

Paradigmático foi o atentado terrorista de 11 de setembro de 2001 contra os Estados Unidos. A reação do Presidente Bush foi declarar a “guerra infinita” contra o terror; instituir o “ato patriótico” que viola direitos fundamentais ao permitir prender, sequestrar e submeter a afogamentos a suspeitos; criar 17 agências de segurança em todo o país e começar a espionar todo mundo no mundo inteiro, além de submeter terroristas e suspeitos em Guantánamo a condições desumanas e a torturas.

O que os USA e aliados ocidentais fizeram no Iraque foi uma guerra preventiva com uma mortandade de civis incontável. Se no Iraque houvesse somente ampla plantação de frutas e cítricos, nada disso ocorreria. Mas lá há muitas reservas de petróleo, sangue do sistema mundial de produção.

Tal violência barbárica, porque destruíu os monumentos de uma das mais antigas civilizações da humanidade, deixou um rastro de raiva, de ódio e de vontade de vingança.

A partir deste transfundo, se entende que o atentado abominável em Paris é resultado desta violência primeira e não causa originária. O efeito deste atentado é instalar o medo em toda a França e em geral na Europa. Esse efeito é visado pelo terrorismo: ocupar as mentes das pessoas e mantê-las reféns do medo.

O significado principal do terroismo não é ocupar territórios, como o fizeram os ocidentais no Afeganistão e no Iraque, mas ocupar as mentes. Essa é sua vitória sinistra.

A profecia do autor intelectual dos atentados de 11 de setembro, o então ainda não assassinado Osama Bin Laden, feita no dia 8 de outubro de 2001, infelizmente, se realizou: “Os EUA nunca mais terão segurança, nunca mais terão paz”.

Ocupar as mentes das pessoas, mantê-las desestabilizadas emocionalmente, obrigá-las a desconfiar de qualquer gesto ou de pessoas estranhas, eis o que o terrorismo almeja e nisso reside sua essência. Para alcançar seu objetivo de dominação das mentes, o terrorismo persegue a seguinte estratégia:

(1) os atos têm de ser espetaculares, caso contrário, não causam comoção generalizada;

(2) os atos, apesar de odiados, devem provocar admiração pela sagacidade empregada;

(3) os atos devem sugerir que foram minuciosamente preparados;

(4) os atos devem ser imprevistos para darem a impressão de serem incontroláveis;

(5) os atos devem ficar no anonimato dos autores (usar máscaras) porque quanto mais suspeitos, maior o medo;

(6) os atos devem provocar permanente medo;

(7) os atos devem distorcer a percepção da realidade: qualquer coisa diferente pode configurar o terror. Basta ver alguns rolezinhos entrando nos shoppings e já se projeta a imagem de um assaltante potencial.

Formalizemos um conceito do terrorismo: é toda violência espetacular, praticada com o propósito de ocupar as mentes com medo e pavor.      

O importante não é a violência em si, mas seu caráter espetacular, capaz de dominar as mentes de todos. Um dos efeitos mais lamentáveis do terrorismo foi ter suscitado o Estado terrorista que são hoje os EUA. Noam Chomsky cita um funcionário dos órgãos de segurança norte-americano que confessou: “Os USA são um Estado terrorista e nos orgulhamos disso”.

Oxalá não predomine no mundo, especialmente, no Ocidente este espírito. Aí sim, iremos ao encontro do pior. Leonardo

sábado, 15 de novembro de 2014

Cuba: a hora final do embargo?

Começavam em Cuba os críticos anos noventa e na rua Oito de Miami uma peça de teatro arrasava: Nos 90 Fidel se arrebenta. A comédia antes se chamaria Nos 70 Fidel se arrebenta, e como a previsão não se cumpriu, acabou se tornando uma saga até chegar ao palco, quando bateu todos os recordes: a peça ficou dez anos em cartaz, protagonizada pelo comediante cubano Armando Roblán (que morreu no ano passado nos Estados Unidos sem ver seu sonho se realizar).

Naqueles anos o mundo bipolar da Guerra Fria se tornou unipolar e os EUA endureceu sua política de embargo em relação à ilha com leis como a Torricelli (1992) e a Helms-Burton (1996). Essas normas tornaram extraterritoriais algumas das medidas que perseguiam o comércio com Cuba e tentavam isolar o Governo de Fidel Castro, estratégia política nascida quase com o início da revolução, em 1959, e que —incrivelmente— meio século depois continua em vigor.

Era hora de apertar, pensavam alguns. Parecia que o socialismo cubano estava prestes a desaparecer, assim como a Europa do Leste tinha desmoronado como um castelo de cartas depois da queda do muro de Berlim (o que acaba de completar 25 anos). Foram anos tremendos para os cubanos, quando os apagões chegaram a ser de 14 horas diárias e uma epidemia de neurite, causada pela má alimentação, afetou 50.000 pessoas. O Ocidente então estava tão convencido de que o castrismo estava no último round que as grandes editoras desabafaram: em 1993 foi lançado Castro’s final hour, de Andrés Oppenheimer (Simon & Schuster) e Fin de siècle à la Havane, de François Fogel e Bertrand Rosenthal.

No entanto, a hora final de Castro se estendeu um pouquinho (já se vão 22 anos de prorrogação) e, disposto a sobreviver, o comandante não só fez desaparecer o socialismo real como também sua própria doença, uma diverticulite mal curada que quase lhe custou a vida e deu o gosto a seus inimigos em 2006, mas não.

Cada vez há mais vozes norte-americanas pedindo para se alterar o enfoque em relação à ilha
Hoje a ilha não é governada por Fidel Castro, mas por seu irmão Raúl, mas é possível dizer que Cuba em essência continua a mesma, e também que o embargo norte-americano foi um fracasso. Se algo mudou no país —mais espaço para a iniciativa privada, abertura aos investimentos estrangeiros, eliminação das restrições para sair do país, inclusive para dissidentes— foi por decisão e conveniência do próprio Governo, e não como resultado da política de pressão norte-americana.

Esse fato inquestionável —e visível há tempos para todos que não são míopes— agora é aceito nos EUA por poderes e personalidades influentes, do The New York Times a Hillary Clinton. A ex-secretária de Estado recentemente revolucionou a capital do exílio com declarações, a propósito da publicação de seu recente livro de memórias, sobre a necessidade de mudar o enfoque em relação a Cuba e acabar com o embargo. Dias depois, o New York Times surpreendeu com um editorial no qual pediu abertamente a Obama para dar uma guinada de 180 graus em sua política e restabelecer relações com Cuba. O jornal qualificou o embargo de “insensato” e esse editorial foi sucedido por mais quatro no mês passado, um deles aplaudindo a atitude de Cuba na luta internacional contra o ebola, outro pedindo a troca de vários espiões cubanos presos nos EUA por um empreiteiro norte-americano preso em Havana, e o último —no domingo passado— defendendo o fim das ações veladas de Washington para promover a democracia em Cuba.

Um longo meio século depois do início do embargo, cada vez são mais (e mais altas) as vozes que pedem para que não se espere mais 50 anos para tirar de cena uma peça de teatro tão obsoleta quanto a famosa Nos 90 Fidel se arrebenta.

Mauricio Vicent foi correspondente da Rede SER e de EL PAÍS em Havana entre 1991 e 2011.

fonte: El País Brasil 

sexta-feira, 25 de julho de 2014

O que ganha EUA com a guerra de Israel?

Observadores da geopolítica do Oriente Médio tendem a colocar a culpa do caos na região em um suposto fracasso das políticas “incoerentes”, “ilógicas” ou “contraditórias” dos EUA. No entanto, evidências irrefutáveis apresentadas neste estudo sugerem que, na verdade, o caos representa o sucesso, e não o fracasso, destas políticas — que foram formuladas pelos beneficiários da guerra e das aventuras militares na região e em outros locais. Enquanto as políticas norte-americanas na região são certamente irracionais e conflituosas do ponto de vista da paz internacional e mesmo do ponto de vista dos interesses nacionais como um todo, elas são bastante lógicas do ponto de vista dos beneficiários econômicos e geopolíticos da guerra e de hostilidades internacionais; isto é, do (a) do complexo militar-industrial, e (b) dos militantes sionistas que propõem uma “Grande Israel.”

As sementes do caos foram plantadas há cerca de 25 anos, quando o muro de Berlim caiu. Uma vez que a razão para um aparato militar gigantesco durante a Guerra Fria era a “ameaça do comunismo,” os cidadãos americanos celebraram a queda do Muro como o fim do militarismo e a aurora dos “dividendos da paz” — uma referência aos benefícios que muitos gozariam nos EUA em decorrência da reorientação de parte do orçamento do Pentágono na direção de necessidades sociais.

Mas enquanto os cidadão norte-americanos celebravam, os poderosos interesses que investiam na expansão dos gastos militares se sentiram ameaçados. Sem surpresas, estas forças mudaram seus alvos para salvaguardar seus interesses contra as “ameaças de paz.”

Para sufocar as vozes que demandavam os dividendos da paz, os beneficiários da guerra e do militarismo começaram a redefinir metodicamente as “fontes de ameaça” pós-Guerra Fria dentro do espectro do novo mundo multi-polar, que ia além da tradicional “ameaça Soviética” da era anterior. Ao invés de “ameaça comunista”, os “estados párias,” o islamismo radical e o “terrorismo global” seriam os novos inimigos.

Publicamente, a maior parte da reavaliação do mundo pós-Guerra Fria foi apresentada pelos militares de alta patente. Por exemplo, o General Carl Vuno, chefe do estado-maior do exército dos EUA, declarou ao Comitê da Câmara em maio de 1989: “muito mais complexo [do que qualquer perigo imposto pela União Soviética] é a situação ameaçadora em desenvolvimento no resto do mundo… neste mundo multi-polar, nós enfrentamos ameaças de países que estão se tornando cada vez mais sofisticados militarmente e mais agressivos politicamente”. 

O General Colin Powell, presidente da junta de chefes do estado-maior na época, argumentou no Comitê do Senado que apesar da queda da União Soviética, os EUA precisavam continuar com seu acúmulo de forças militares por outras obrigações: “Com todos estes desafios e oportunidades confrontando nossa nação, é impossível acreditar que a desmobilização ou esvaziamento das forças militares americanas são um caminho para o futuro. O verdadeiro ‘dividendo da paz’ é a paz mesmo… A paz surge através da manutenção da força” . 

Enquanto os militares de alta patente, vestidos de uniformes belos e chamativos, tomavam o papel principal na luta contra a diminuição do complexo militar-industrial; militaristas civis, trabalhando dentro e fora do Pentágono e associados aos think-tanks militaristas, tramavam por trás das cortinas. Entre eles se incluem o então secretário de defesa Dick Cheney; seu subsecretário de defesa Paul D. Wolfowitz; Zalmay Khalizad, então assessor de Wolfowitz; e I. Lewis “Scooter” Libby, então subsecretário adjunto de defesa. Este grupo de homens e seus pensadores e colaboradores (tal qual Richard Perle, Douglas Feith, e outros) trabalharam diligentemente juntos prevenindo cortes pós-Guerra Fria. “O que tinhamos medo era que as pessoas dissessem ‘vamos trazer todas as tropas de volta pra casa, vamos abandonar nossa posição na Europa’,” relembrou Wolfowitz em uma entrevista. 

Estes planejadores militares eram oficilamente afiliados ao Pentágono e/ou com a administração de Bush pai,mas também eram colaboradores próximos de think-tanks lobistas ultranacionalistas como o American Enterprise Institute, Project for the New American Century e o Jewish Institute fo National Security Affairs que foi montado para servir tanto ao lobby das armas quanto ao lobby de Israel. Mesmo um olhar superficial sob os registros destes think tanks — sob seus membros, seus recursos financeiros, suas estruturas institucionais, etc — mostram que eles foram criados para servir como frontes institucionais de camuflagem de negócios incestuosos e/ou relacionamentos políticos entre o Pentágono, seus principais empreiteiros, os militares de alta patente, o lobby de Israel e outras corporações beligerantes. 

Em um esforço cuidadoso e calculado para redefinir o mundo pós-Guerra Fria como um mundo “mais perigoso” e desenhar uma nova “estratégia de segurança nacional” para os EUA, este time de planejadores militares e think-tanks produziram um documento geopolítico-militar logo após a queda da União Soviética que foi conhecido como “Guia de Planejamento de Defesa,” ou “Estratégia de Defesa para os anos 1990.” O documento, revelado pela Casa Branca ao Congresso no início dos anos 1990, focava em “pontos imprevisíveis de turbulência no terceiro mundo” como novas fontes de atenção para o poder militar dos EUA na era pós-Guerra Fria: “na nova era, nós prevemos que nosso poder militar continuará a ser um alicerce essencial do equilíbrio global… que as demandas para o uso de nossas forças militares estarão no Terceiro Mundo, onde novas abordagens podem ser necessárias”. 

Para responder às “turbulências nas regiões mais vitais,” a nova situação requisitava uma estratégia para “identificar ameaças” — uma estratégia militar que “conteria e reprimiria conflitos locais ou regionais no Terceiro Mundo com rapidez e eficiência antes que eles saíssem de controle.” No mundo pós-Guerra Fria de “múltiplas fontes de ameaças,” os EUA também necessitariam estar preparados para lutar guerras de “baixa e média intensidade.” Baixa e média intensidade não se referem ao nível de poder de fogo e violência empregados, mas à escala geográfica se comparada com uma guerra mundial ou regional que paralisaria os mercados globais.

A “Estratégia de Defesa para os anos 1990” também falava de manter e expandir a “profundidade estratégica” norte-americana — um termo cunhado pelo então secretário de defesa Dick Cheney. O termo tinha uma conotação geopolítica, significando que, após a queda do Muro de Berlim, os EUA deveriam estender sua presença global — em termos de bases militares, estações de escuta e inteligência e tecnologia militar — a areas anteriormente neutras ou sob influência da União Soviética.

As prescrições políticas destas profecias eram inequívocas: tendo projetado (e depois criado) o mundo pós-Guerra Fria como um lugar fracionado em “múltiplas ameaças aos interesse nacionais norte-americanos,” beneficiários poderosos do orçamento do Pentágono tiveram sucesso na manutenção dos gastos nos mesmos níveis da Guerra Fria. Proponentes do militarismo contínuo “se moveram com rapidez notável para assegurar que a queda da União Soviética não afetaria o orçamento do Pentágono ou nossa ‘posição estratégica’ que garantimos em nome do anti-comunismo.”

Para levar a cabo a “Estratégia de Segurança Nacional” do mundo pós-Guerra Fria, os organizadores do plano necessitavam de pretextos, que frequentemente significavam inventar ou fabricar inimigos. Beneficiários dos dividendos de guerra às vezes encontravam “inimigos externos e ameaças apenas decidindo unilateralmente que ações ao redor do mundo eram terrorismo,” ou por classificar arbitrariamente alguns países como “apoiadores do terrorismo”, como Bill Christison, assessor aposentado da CIA, demonstrou. 

Eles também criaram atritos internacionais através de políticas traiçoeiras que tinham o intuito de provocar ira e violência, o que seria o estopim para futuros atos de terrorismo e um ciclo vicioso de guerra. E é claro, a abominável força por trás desta estratégia servia para manter os lucros do negócio da guerra. Gore Vidal caracterizou satiricamente esta maldita necessidade dos beneficiários da guerra de constantemente aparecerem com novas ameaças e inimigos como “clube do inimigo do mês: cada mês somos confrontados com um horroroso inimigo que devemos atacar antes que nos destrua” 

Uma pequena guerra aqui, outra ali, uma guerra de “baixa intensidade” no país x, outra de “média intensidade” no país y — cinicamente chamadas de “guerras sob controle” — são estratégias que manteriam o orçamento militar na direção dos cofres do complexo industrial-militar sem causar um conflito de larga escala que acabaria com os mercados mundiais.

Ainda dentro deste cenário, a abordagem do governo dos EUA aos ataques hediondos de 11 de setembro foi uma oportunidade para que a guerra e agressão não chegassem de surpresa a qualquer um familiar às necessidades viciosas do militarismo. Os ataques monstruosos foram tratados não como crimes, mas como uma “guerra contra a America.” Uma vez que foi estabelecido que os EUA estavam “em guerra,” as agressões imperialistas começaram. Como colocou Chalmers Johnson, a tragédia de 11 de setembro “serviu como um maná do paraíso à uma administração determinada a aumentar o orçamento militar” 

Nesta época, já haviam sido rotulados como “hostis” governos como os do Irã, Iraque, Líbia e Coréia do Norte por serem desonestos ou apoiarem o terrorismo, o que requeria uma “mudança de regime.” Antes dos ataques de 11 de setembro, no entanto, tais rótulos demonizantes não eram aparentemente suficientes para convencer o povo americano a apoiar os EUA em sua tendência à guerra. A tragédia de 11 de setembro serviu de pretexto para tais conflitos — que se seguiram a mudança de regime no Iraque e em outros países hostis ao redor do mundo.

Como beneficiários dos dividendos de guerra, o complexo industrial-militar considerava a paz internacional e a estabilidade como inimigos para seus interesses, e assim também acontecia com militantes sionistas proponentes da “Grande Israel”que perceberam que a paz entre Israel e seus vizinhos palestinos/árabes era prejudicial a seus objetivos de tomarem o controle da “Terra Prometida.” A razão para este medo da paz é que, de acordo com algumas resoluções das Nações Unidas, a paz significaria o retorno de Israel a suas fronteiras pré-1967, isto é, fora da Faixa de Gaza e da Cisjordânia. Logo, seu medo da paz faz com que continuem suas tentativas de sabotagem das negociações.

Pela mesma razão, estes proponentes enxergam a guerra e a convulsão (ou, como David Ben-Gurion, um dos fundadores do Estado de Israel colocava, “atmosfera revolucionária”) como oportunidades para a expulsão dos palestinos e para a reconfiguração geográfica de região e expansão do território israelense. “O que é inconcebível em tempos normais,” Ben-Gurion apontava, “é possível em tempos revolucionários; e se neste tempo a oportunidade for perdida — um mundo todo é perdido” 

Ecoando um sentimento similar de que a dissolução e fragmentação dos estados árabes em mosaicos de grupos étnicos é possível apenas sob condições de guerra e convulsão sociopolítica, o notório linha-dura Ariel Sharon apontou em março de 1988 que “se as revoltas palestinas continuarem, Israel teria de guerrear contra seus vizinhos árabes. A guerra, ele declarou, proveria ‘as circunstâncias’ para que se removesse a população palestina por inteiro da Cisjordânia e de Gaza e até mesmo de dentro de Israel” 

Esta visão de que a guerra “proveria as circunstâncias” para a remoção dos palestinos dos territórios ocupados tem como premissa a espectativa de que os EUA também compartilham desta noção e iriam apoiar o expansionismo de Israel no caso de uma guerra. A espectativa não é de forma alguma estranha ou incomum, pois os beneficiários dos gastos militares nos EUA teriam prazer de ajudar Israel, não tanto pelo bem do país, mas por seus propósitos nefastos — a aliança entre o complexo militar-industrial e o lobby de Israel.

Por causa dos interesses destes dois poderosos grupos convergindo na direção da fomentação da guerra e das convulsões políticas no Oriente Médio, uma aliança potente e ameaçadora foi forjada entre os dois — ameaçadora porque a poderosa máquina de guerra norte-americana é agora suplementada pela incomparável capacidade de relações públicas do lobby pro-Israel nos EUA. A convergência e/ou interdependência dos interesses do complexo militar-industrial e aquele dos militantes sionistas é o coração do ciclo perpétuo de violência na região.

Tal aliança não é oficial; ela é sutilmente forjada através de uma elaborada rede de poderosos think tanks como os seguintes: The American Enterprise Institute, Project for the New American Century, America Israel Public Affairs Committee, Middle East Media Research Institute, Washington Institute for Near East Policy, Middle East Forum, National Institute for Public Policy, Jewish Institute for National Security Affairs, and Center for Security Policy.

Imediatamente após a Guerra Fria, estes think tanks e seus operadores dentro e fora do governo publicaram vários documentos que defendiam claramente mudanças de fronteiras, mudanças demográficas e mudanças de regime no Oriente Médio. Por exemplo, em 1996, um influente think tank israelense, o Institute for Advanced Strategic e Political Studies, patrocinou e publicou um documento intitulado “Uma quebra limpa: uma nova estratégia de segurança para região,” que argumentava que o governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu “deveria fazer uma ‘quebra limpa’ do processo de paz de Oslo e reassumir a reivindicação da Cisjordânia e de Gaza. O documento apresentou um plano onde Israel deveria ‘formular seu ambiente estratégico,’ começando com a derrubada de Saddam Hussein e a instalação da monarquia hashimita em Bagdá para servir de primeiro passo em direção a eliminação dos governos anti-Israel da Síria, do Líbano, da Arábia Saudita e do Irã”

Em uma “Carta Aberta ao Presidente” (Clinton), de 19 de fevereiro de 1998, vários think tanks e indivíduos representando o complexo militar-industrial e o lobby de Israel, recomendaram “uma estratégia política e militar para tirar Saddam do regime.” Entre os signatários da carta estavam: Elliott Abrams, Richard Armitage, John Bolton, Douglas Feith, Paul Wolfowitz, David Wurmser, Dov Zakheim, Richard Perle, Donald Rumsfeld, William Kristol, Joshua Muravchik, Leon Wieseltier, e Stephen Solarz.

Em setembro de 2000, outro think tank militarista chamado Project for the New American Century (PNAC), lançou um relatório entitulado “reconstruindo as defesas da América: estratégia, forças e recursos para um novo século,” que projetava explicitamente o desempenho de um papel imperialista pelos EUA no mundo todo. Ele estabelecia, por exemplo, “que os EUA durante décadas tentaram ter um papel permanente na segurança da região do Golfo Pérsico. Enquanto o conflito sem resolução com o Iraque provê uma justificativa imediata, a necessidade de uma substancial presença americana no Golfo transcende a questão do regime de Saddam Hussein.” Os patrocinadores do relatório incluiam Richard Cheney, Donald Rumsfeld, Paul Wolowitz, Lewis Libby e Willian Kristol, que também foi co-autor do relatório.

O influente Jewish Institute for the National Security Affairs (JINSA) também emitiu declarações e documentos que defendiam “mudanças de regime” no Oriente Médio. Seu assessor, Michael Ladeen, que também assessorou extra-oficialmente a administração Bush em questões do Oriente Médio, falava abertamente da era da “guerra total” que estava por vir, indicando que os EUA deveriam expandir suas políticas de “mudanças de regime” no Iraque a outros países na região como o Irã e a Síria. “Neste fervente apoio a estas políticas pró-assentamentos e anti-palestina, o JINSA recomendou que a ‘mudança de regime’ no Iraque deveria ser apenas o início para que os dominós caissem no Oriente Médio”.

Em suma, a evidência é arrebatadora (e irrefutável) de que o caos no Oriente Médio, Norte da África e Leste Europeu/Ucrânia não é por causa de políticas “equivocadas” dos EUA e seus aliados, como muitos críticos tendem a sustentar. O caos é causado por políticas premeditadas e muito bem desenhadas que foram cunhadas por uma aliança entre o complexo militar-industrial e o lobby israelense no mundo pós-guerra fria.



fonte: Pragmatismo Político 

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Ucrânia acusa separatistas russos de derrubarem avião


Um avião da Malaysia Airlines, que partiu de Amsterdã com destino a Kuala Lampur, perdeu contato nesta quinta-feira (17/07) quando sobrevoava o Leste da Ucrânia. Acompanhe aqui as últimas atualizações sobre o caso (no horário de Brasília).

16h27 - Segundo o site Flightradar24, que monitora rotas aéreas, um Boeing 777 da Singapore Airlines e um Boeing 787 da Air India estavam a cerca de 25 quilômetros de distância da aeronave da Malaysia Airlines no momento em que ela desapareceu do radar.

Singapore Airlines SQ351 (B777) and Air India AI113 (B787) were about 25 km from #MH17 when it disappeared. pic.twitter.com/BVDMlqGOjG

— Flightradar24 (@flightradar24) 17 julho 2014

16h15 - De acordo com o site Flightradar24, que monitora rotas aéreas, as companhias aéreas evitam usar o espaço aéreo ucraniano e utilizam o búlgaro e turco, após o desastre com a aeronave da Malaysia Airlines.

Less flights over Ukraine. More flights over Bulgaria and Turkey after #MH17 pic.twitter.com/tsGx7NRXtg
— Flightradar24 (@flightradar24) 17 julho 2014

16h00 - A companhia americana Delta Airlines afirmou também que suas aeronaves não vão mais usar o espaço aéreo ucraniano "por precaução". Ao mesmo tempo, a empresa disse que está monitorando a situação envolvendo o voo MH17, da Malaysia Airlines.

15h33 - O presidente americano, Barack Obama, ofereceu assistência aos agentes que investigam as causas da queda do avião da Malaysia Airlines. Pelo menos 22 cidadãos americanos estariam a bordo da aeronave.

15h26 - O chefe da agência de controle de tráfego aéreo da Ucrânia informou para jornalistas que os pilotos da aeronave não reportaram nenhum tipo de problema durante o voo. "O voo sobre o espaço aéreo ucraniano progrediu sem nenhum problema."

15h22 - De acordo com o chanceler francês, Laurent Fabius, ao menos quatro franceses estavam no voo MH17, que realizava a rota Amsterdã-Kuala Lampur.

15h20 - Além da Air France, outras companhias aéreas europeias como Lufthansa e British Airways decidiram realizar uma rota alternativa para não terem que sobrevoar a mesma região onde a aeronave da Malaysia Airlines caiu. Em abril, o Departamento Federal de Aviação dos EUA (FAA) declarou que a zona de conflito na península da Crimeia não deveria ser usada por pilotos de empresas aéreas e pilotos americanos. Uma ordem similar também foi dada em abril pela Organização Europeia para Segurança Aérea (Eurocontrol).

15h10 - O presidente russo, Vladimir Putin, ofecereu suas "profundas condolências" ao primeiro-ministro malaio, Najib Razak, sobre o acidente com o avião da Malaysia Airlines na Ucrânia.

14h53 - O presidente ucraniano, Petro Poroshenko, acredita que separatistas pró-Rússia teriam abatido o Boeing 777 da Malaysia Airlines, e qualificou o ato como "ato terrorista", escreveu o porta-voz Svyatoslav Tsegolko no Twitter. "Este incidente não é uma catástrofe. É um ato terrorista."

14h50 - O ministro do Interior da Ucrânia, Zoryan Shkyryak, disse que a queda do avião da Malaysia Airlines deixou mais de 300 mortos. Entre eles, 22 cidadãos dos Estados Unidos. A informação é da agência russa Interfax. Antes, a companhia aérea havia informado que 295 pessoas estavam a bordo.

14h46 - O comentário de um comandante da autoproclamada "República Popular de Donetsk" numa rede social sugere que os separatistas teriam acertado a aeronave da Malaysia Airlines por engano ao acreditarem que se tratava de um grande avião de transporte do exército ucraniano. "Nós tínhamos alertado (as forças armadas ucranianas) para não voarem em nossos céus", teria afirmado o comandante, de acordo com a agência de notícias AFP.

14h29 - A França pediu que as companhias aéreas do país evitem o espaço aéreo ucraniano, após o desastre com a aeronave da Malaysia Airlines. Segundo o ministro-adjunto dos Transportes, Frederic Cuvillier, as empresas aéreas devem evitar o espaço aéreo ucraniano "até que as razões por trás da catástrofe sejam conhecidas."

14h15 - Tanto o governo ucraniano quanto os separatistas pró-Rússia negaram terem abatido o avião.

14h00 - Por telefone, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, informou o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, sobre a queda do avião.

13h54 - Por enquanto, sabe-se que o avião caiu em algum ponto próximo à fronteira da Ucrânia com a Rússia. O Boeing 777 da Malaysia Airlines estaria levando quase 300 passageiros. As especulações, até aqui não confirmadas, são se que a aeronave teria sido abatida.

13h52 -Pelo Twitter, circulam fotos de supostos destroços do avião.

These are new images of the MH17 wreckage from Russian television. @ABC Special Report: http://t.co/N8rNl1EnQp pic.twitter.com/W077iDZn4D
— Gio Benitez (@GioBenitez) 17 julho 2014

13h30 - "Nós não descartamos que esse avião tenha caído", disse o presidente ucraniano.

13h25 - O presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko, garantiu que o Exército de seu país não fez qualquer disparo na região onde o avião teria caído. Ele nega qualquer alegação de que a Ucrânia tenha derrubado o Boeing da Malaysia Airlines, mas não descarta que o voo realmente tenha sido atingido.

13h20 - A agência Interfax diz que o avião caiu a cerca de 30 quilômetros da fronteira russa.

13h10 - A aeronave desaparecida é um Boeing 777. O avião é do mesmo tipo e da mesma empresa, a Malaysia Airlines, do voo MH370, que desapareceu em março no mar e até hoje não foi encontrado.

13h06 - Segundo a agência de notícias Reuters, que cita um funcionário do Ministério do Interior ucraniano, o avião foi derrubado por um míssel disparado por militantes pró-Rússia. Não há, porém, qualquer confirmação oficial.

13h05 - Segundo a agência de notícias AFP, o presidente da Ucrânia admitiu a possibilidade de que a aeronave foi derrubada.

13h00 - Segundo a agência russa Interfax o avião, com 295 pessoas a bordo, caiu perto da frontreira com a Rússia.

12h55 - A única informação oficial divulgada até agora, pela Malaysia Airlines, é de que o avião está desaparecido. A empresa diz ter perdido contato com a aeronave quando ela sobrevoava a Ucrânia.


FONTE: DW

quarta-feira, 2 de julho de 2014

O Tribunal de Estrasburgo avaliza a proibição da burca na França

A lei francesa que, no final de 2010, proibiu o véu integral em espaços públicos não viola os direitos humanos. Assim se pronunciou hoje o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, em Estrasburgo, em resposta ao processo aberto a pedido de uma jovem francesa que defende o uso da burca e do niqab (véus que cobrem o rosto, exceto os olhos) e considera que obrigar as mulheres a mostrar o rosto a pedido da polícia é uma violação da privacidade e da liberdade religiosa.

A França, juntamente com Bélgica, Luxemburgo, Reino Unido, Holanda e parte da Espanha, é um dos poucos países que legislaram nos últimos anos contra o véu integral usado por uma pequena parte das muçulmanas. Na França, onde a população muçulmana é estimada em mais de 6 milhões de pessoas, apenas cerca de 2.000 mulheres usam o véu. No primeiro ano completo de aplicação da lei (2013), 400 mulheres foram abordadas pela polícia por usar essa peça de vestuário que cobre praticamente todo o rosto e o corpo das mulheres.

O argumento do tribunal europeu é interessante na medida em que considera um objetivo legítimo da França "preservar as condições de vida em comum" e que, portanto, as autoridades devem desfrutar de uma "ampla margem de apreciação". Na verdade, a lei, aprovada por maioria esmagadora no parlamento francês (tanto na câmara, como no senado), proíbe qualquer peça de vestuário que cubra o rosto em espaços públicos, incluindo as ruas.

A identidade da mulher, de origem paquistanesa, que levou o caso ao tribunal é desconhecida. Ela nem sequer compareceu em Estrasburgo. Foi representada por seus advogados, britânicos, uma vez que a iniciativa foi favorecida pelo entorno familiar da requerente, que mora em Birmingham. Os mesmos advogados afirmam que se trata de uma cidadã francesa com formação universitária, que fala com paixão da República e se considera uma "patriota".


Sua exigência, no entanto, é contrária ao que sente a maioria dos franceses. A sociedade já se manifestou totalmente contrária ao véu integral, batalha iniciada pelo então presidente da República, Nicolas Sarkozy, ao proclamar que "a burca não é bem-vinda na França". 

Em debate geral sobre a burca, em 2010, a Espanha renunciou a uma legislação nacional sobre o véu integral. Meia dúzia de municípios catalães, no entanto, incluíram a proibição em suas leis municipais, o que o Supremo Tribunal não considerou pertinente. Para o supremo, proibir o véu integral limita o direito à liberdade religiosa e é de competência exclusiva do parlamento, que teria o direito de aprovar uma lei nesse sentido.

É a segunda vitória importante que a França obtém, nos últimos dias, em sua batalha contra o véu. Na semana passada, o Supremo Tribunal francês avalizou a demissão da funcionária de uma creche pública por usar essa peça de vestuário (que, em seu caso, não era integral). A razão para a demissão foi o descumprimento da obrigação de respeitar rigorosamente a neutralidade religiosa. Com isso, pôs-se fim a seis anos de processos judiciais em que houve sentenças contraditórias.


fonte: El País Brasil 

domingo, 29 de junho de 2014

Costa Rica: o país que aboliu as forças armadas e substituiu as bases militares por escolas

Há 65 anos, a Costa Rica aboliu as suas forças armadas e substituiu as bases militares por escolas. Pretende ser o primeiro país em desenvolvimento a deixar de ser dependente de carvão, até 2021. E os costa-riquenhos são o povo mais feliz do planeta, de acordo com o Happy Planet Index. “Parece algo tirado da lista de desejos da música Imagine de John Lennon”, como escreveu a revista Diplomat. Apesar de apresentar sinais de alguma inquietação, o paradigma pacifista da Costa Rica parece estar aí para ficar, mas a América Latina ainda não é uma região segura.

Na manhã de 1 de Dezembro de 1948, o Presidente, José Figueres Ferrer, declarava “oficialmente dissolvido o Exército Nacional, por considerar suficiente para a segurança do país a existência de um bom corpo de polícia. ” “O Exército Regular da Costa Rica (…) entrega a chave deste quartel às escolas, para que seja convertido num centro cultural. ” Não obstante o carácter louvável da deposição das armas, por trás da decisão do novo Presidente estiveram razões bem mais pragmáticas. A subida de Ferrer ao poder aconteceu depois de um confronto militar entre o Exército da Costa Rica, apoiado por guerrilhas comunistas, e a sua própria facção de homens armados. A ausência de forças armadas na Costa Rica significava também a ausência de ameaças para Don Pepe, como era carinhosamente conhecido.

O investigador do Instituto de Ciências Sociais (ICS) Andrés Malamud sintetiza os ganhos que a Costa Rica obteve nas últimas décadas: “Em contraste com a maioria da América Central, não teve mais guerras civis e, em contraste com a maioria da América Latina, não teve mais golpes de Estado.”

Para além disso, a falta de forças armadas permitiu que os orçamentos para a educação e para a saúde fossem mais generosos. Não é por acaso que a Costa Rica é conhecida como a “Suíça da América Latina”. A esperança média de vida tem um valor quase nipónico, de 78 anos, e a taxa de alfabetização é de 96,3%, valores que fariam corar muitos países europeus.

Nas relações externas, a Costa Rica aposta nas virtudes do “multilateralismo”, confiando na diplomacia e no papel das instituições supranacionais para a resolução de conflitos. É o que tem acontecido com o diferendo que envolve a fronteira com o Nicarágua. As reivindicações territoriais entre os dois países têm mais de um século, mas em Outubro de 2011 conheceram novos desenvolvimentos. Um grupo de trabalhadores nicaraguenses foi enviado para a foz do rio San Juan – a fronteira natural entre os dois países – onde iniciaram a dragagem do local, chegando mesmo a montar um acampamento guardado por 50 soldados em território costa-riquenho. A resposta não tardou, com o Governo da Costa Rica a enviar 70 polícias para o local e a interpor uma acção junto do Tribunal Internacional de Justiça (TIJ). A Nicarágua argumentou que o local onde o contingente estacionou ainda pertencia ao país, servindo-se de uma imprecisão do Google Maps como prova da reivindicação. Constatando o óbvio, a Google aconselhou os governos mundiais a não tomarem decisões geoestratégicas tendo como base a sua aplicação. A Time chamou-lhe a “guerra do século XXI”.

Em Novembro, o TIJ decidiu a favor da Costa Rica e ordenou Manágua a retirar todo o equipamento e o pessoal que tinha no território disputado. O ministro dos Negócios Estrangeiros da Costa Rica, Enrique Castillo, saudou aquela que foi “uma vitória do direito internacional”. E também do pacifismo costa-riquenho, reconhecido pela comunidade internacional. É na capital, San Juan, que se situa, por exemplo, a sede do Tribunal Inter-Americano dos Direitos Humanos, desde 1979, e foi igualmente na Costa Rica que a ONU instalou, em 1980, a Universidade para a Paz.

Uma região intranquila
Por tudo isto, o pacifismo tornou-se consensual na Costa Rica e é visto como “um factordiferenciador do país face a vizinhos vistos de fora como belicistas, pouco confiáveis e incapazes de construir sociedades equilibradas e justas”, observa o docente do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) Marcos Farias Ferreira. No entanto, o aparecimento recente de um grupo armado que afirma estar a preparar-se para defender o país na eventualidade de um conflito vem mostrar que o pacifismo pode não ser tão transversal como aparenta. Trata-se de um grupo de cerca de cem elementos, liderados por um ex-chefe da polícia, que se autodenomina como “Frente Patriótica para a Defesa Nacional” e que afirma ter passado os últimos meses em exercícios militares na selva do país.

A Presidente da Costa Rica, Laura Chinchilla, demarcou-se de imediato das acções do grupo, afirmando que “esta é a via que levou outros países latino-americanos a importar fórmulas guerrilheiras ou paramilitares.” A resistência do Governo costa-riquenho tem por base os vários exemplos, por toda a América Latina, de grupos armados que degeneraram em ameaças internas para os próprios regimes, tais como as Autodefesas Unidas da Colômbia, o Exército Popular do Povo Paraguaio ou o Sendeiro Luminoso.


Não é provável que este tipo de grupos encontre terreno fértil na pacífica Costa Rica, apesar de haver o reconhecimento de que os desentendimentos fronteiriços mais recentes obrigam a um fortalecimento em matéria de segurança. “A linha que separa este reforço da militarização é muito ténue”, afirma Marcos Ferreira. No entanto, o docente prevê que, “na conjuntura actual os actores políticos não defenderão essa alteração tão crítica do carácter e da identidade do país.”

O tempo em que os homicídios e os golpes de Estado eram a forma privilegiada de substituição dos líderes políticos na América Latina já são relíquias, mas nem por isso os conflitos cessaram. Considerando que “a possibilidade de guerra entre dois Estados é baixa”, o investigador do Council of Hemispheric Affairs (COHA), Alejandro Sanchez, sublinha que “os problemas e os desafios à segurança da região são hoje em dia de carácter interno” e elege o narcotráfico e os grupos violentos como as maiores ameaças.

Depois da Costa Rica, também o Panamá aboliu as suas forças armadas, após a queda de Manuel Noriega em 1989, sugerindo que o exemplo costa-riquenho pudesse ser seguido. No entanto, ambas as decisões foram conjunturais, não fazendo supor, segundo Marcos Farias Ferreira, que outros países sigam o mesmo caminho.

As cautelas quanto à segurança da América Latina ainda imperam nas opções militares da maioria dos países. Alejandro Sanchez defende que “é seguro não ter um exército, mas são necessárias forças de segurança internas (polícia, guarda costeira e fronteiriça, entre outras) porque a região não é pacífica.” 

 Fonte: Público

quarta-feira, 11 de junho de 2014

A greve de taxistas deixa Madri sem serviço e complica o tráfego em Barcelona

A greve contra a intrusão no setor tirou os táxis das ruas de Madri e complicou o trânsito em Barcelona. Os dois principais sindicatos dizem que até o momento houve 100% de adesão à greve de 24 horas convocada para esta quarta-feira a fim de denunciar o funcionamento de serviços como o Uber, que permite localizar através de um aplicativo de celular motoristas dispostos a se passarem por taxistas, embora não tenham licença para a atividade.

No aeroporto madrilenho de Barajas, o ponto de táxi está vazio desde as primeiras horas da manhã. Os passageiros que chegam aos terminais estão usando principalmente ônibus para se deslocar até o centro de Madri. Há nove ônibus em circulação em vez dos habituais seis e não há grandes filas. O resto das operações de ônibus não foi reforçado devido à baixa utilização de táxis, ao contrário de quando há greve de metrô.


A situação na estação ferroviária de Atocha também é semelhante à de Barajas. Não há um só táxi estacionado e os viajantes optam pelos ônibus e o metrô. Entre as 8h e 10h30 da manhã, as plataformas do metrô estavam cheias, mas a situação foi se normalizando depois. A área dos táxis está fechada com uma corrente e há apenas alguns carros particulares estacionados lá. Os passageiros estão sendo avisados pelo sistema de comunicação dos trens. Os turistas são os que estão sofrendo mais. Cinco japoneses desnorteados com sete malas enormes na plataforma do trem eram um exemplo disso.

Em Madri só funcionam um total de cem táxis que atendem aos serviços de diálise do Serviço de Urgência Médica de Madri e os casos de emergência.

Junto à greve, as organizações nacionais do setor convocaram uma manifestação que começou as 11h da manhã em Madri, da Praça de Cuzco até o Ministério do Desenvolvimento. O protesto causou congestionamentos na entrada norte da capital. Na Praça de Castilla, o tráfego estava totalmente parado logo após o início do movimento. No fim da caminhada, os motoristas de táxi entregarão um documento ao ministério pedindo a proibição do serviço Uber.

O presidente da União do Táxi e da Federação Espanhola do Táxi, Julio Moreno, garantiu que a adesão à greve era de 100%. O presidente da Federação do Táxi de Madri, Julio Sanz, explicou que foram distribuídos panfletos para os viajantes no aeroporto e nas principais estações da capital para que soubessem dos problemas enfrentados pelo setor diante da “concorrência desleal” do Uber.

Manifestação em Barcelona

Em Barcelona, a única cidade em que o Uber está atualmente operacional na Espanha, a categoria também convocou uma reunião no meio da manhã. Diante das pressões dos taxistas, o aplicativo anunciou promoções para os seus usuários que compartilhem o uso do carro, segundo Jordi Mumbrú.

Na capital catalã, apenas um sindicato, o Élite, havia convocado a greve, enquanto os demais só convocaram uma manifestação. Mas, no fim, era quase impossível encontrar um táxi em Barcelona, já que a maioria optou por não trabalhar. A caminhada começou às 11h na Praça Catalunha, no centro. O sindicato que convocou a greve, no entanto, se concentrou na Estação de Sants e o objetivo é terminar o protesto em frente à sede da empresa Uber, na avenida Diagonal.

A mobilização em Madri coincidiu com protestos em outras grandes cidades europeias como Londres, Paris, Milão, Nápoles e Berlim, entre outras. As manifestações, que chegaram a bloquear os acessos à capital francesa, foram convocadas pelos mesmos motivos: o surgimento de aplicativos de serviços de transporte. O caso mais controverso, do Uber, oferece serviços pagos, mas, segundo denunciam os taxistas, seus motoristas trabalham sem licença.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

"Não existe missão que conserte tudo", diz ex-chefe das tropas no Haiti

General Santos Cruz rebate críticas à liderança brasileira da Minustah e afirma que responsável por um país é seu próprio povo e governo. Hoje à frente da Monusco, ele lembra que ONU é só um suporte ao Exército congolês.
"Sem romantismo." É assim que o general Carlos Alberto dos Santos Cruz enxerga a crescente participação brasileira em missões de paz internacionais. Ex-comandante da Minustah, no Haiti, ele hoje está à frente da Monusco, na República Democrática do Congo.
Em entrevista à DW, ele diz que não existe missão que resolva todos os problemas de um país. E rebate as críticas de que a Minustah – que completa dez anos, sempre chefiada pelo Brasil – teria falhado ao não abordar as raízes dos problemas haitianos.
"Os principais responsáveis pelo país são seus cidadãos. Não existe missão que vá para um local para consertar tudo. O desenvolvimento do país passa pela responsabilidade do próprio povo e dos governantes", afirma o general.
Hoje no comando da maior missão de paz do mundo, Santos Cruz é cauteloso ao avaliar as chances do Brasil em conseguir um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Ele diz que a participação brasileira em missões da ONU é apenas um critério a ser observado. Outros seriam política externa e participação econômica na própria organização.
"Eu não vejo isso com romantismo, (...) isso tem que ser visto de forma muito mais realista", diz. "Excesso de romantismo é você se enxergar como a grande estrela da festa. E, às vezes, você não é."
DW: A atuação brasileira em missões de paz da ONU é cada vez maior. Qual seria, na sua opinião, o próximo país onde o Brasil poderia atuar?
Carlos Alberto dos Santos Cruz: Eu não vejo isso com romantismo. Isso precisa ser avaliado pelo Ministério das Relações Exteriores, que vai aconselhar o governo. É preciso ver realmente qual é o seu objetivo político naquela participação. Há uma projeção internacional e dentro da ONU, mas isso precisa ser muito bem avaliado.
Um dos objetivos de participar mais ativamente das missões seria ter um assento permanente no Conselho de Segurança. O senhor acha que estamos mais próximos de conseguir isso?
Eu acho que você participa do ambiente internacional com maior presença e desenvoltura, não só com o objetivo de ter um assento no Conselho de Segurança. Eu acho que uma reforma ainda está distante. O modelo existe há 70 anos, não vai mudar da noite para o dia. Sem nenhum excesso de romantismo, em uma reformulação há bastante gente na fila. Há outras razões a se considerar, como política externa e participação econômica na própria organização. Isso tem que ser visto de forma muito mais realista.
O que o senhor quer dizer com excesso de romantismo?
Excesso de romantismo é você se enxergar como a grande estrela da festa. E, às vezes, você não é.
A Minustah, chefiada militarmente pelo Brasil, costuma ser criticada por não ter abordado as raízes dos problemas haitianos, de ordem social, econômica e política.
Rebeldes se retiram de cidade do Congo, expulsos por forças locais apoiadas pela ONU
Existe uma avaliação excessiva sobre a missão. Os principais responsáveis pelo país são seus cidadãos. Não existe missão que vá para um local para consertar tudo. Ela vai para resolver alguns problemas emergenciais. Já o desenvolvimento do país passa pela responsabilidade do próprio povo e dos governantes. É difícil isso acompanhar a parte militar, que é muito rápida e específica. O desenvolvimento envolve a capacidade dos políticos locais e a administração pública, que muitas vezes é deficiente. Além disso, há uma influência internacional, com recursos, agências e ONGs. É uma rede tão complexa e grande que você acaba não vendo resultado.
Mas isso também está previsto na missão...
Sim, está previsto. Mas essas promessas de doações de recursos e serviços têm um componente político muito forte. Entre a promessa e a realização há um tempo muito longo. O Congresso tem que aprovar, o dinheiro precisa estar no orçamento, depois o projeto não fica pronto ou a qualidade não é aceita pelo Banco Mundial e pelo país doador. São locais em que não há mão de obra qualificada, é preciso trazer de fora e o preço fica exorbitante. Por isso, a promessa acaba sendo desconectada da realidade imediata. No andamento histórico de um país há degraus que você não pode saltar, tem que subir um por um.
O senhor não teme que se desperdicem os esforços de estabilização?
Isso pode acontecer, mas também não podemos ficar para sempre. Os países têm o direito de ser completamente independentes. Eles têm que ser responsáveis pelo seu destino. Você não pode deformar o relacionamento político interno da população com o poder público.
Também criticam a estabilização por ter sido violenta...
Esse discurso é muito político e genérico. Sempre haverá pessoas contra e, às vezes, é por conveniência política. Mas não houve reclamação de ‘danos colaterais’, como se diz. Nós desmantelamos as gangues muito rapidamente e fizemos isso com muita qualidade.
Por que o senhor acha que foi escolhido como comandante da Monusco?
Em primeiro lugar, devido à experiência no Haiti. Porque o uso da força em ambiente internacional é muito complicado, então é bom ter um pouco de experiência. Além disso, eu faço parte de um país e de um Exército que têm prestígio, com uma diplomacia que sabe projetar o país. Na verdade você é o resultado de tudo isso.
O general Santos Cruz, nos tempos de Minustah: "Existe uma avaliação excessiva sobre a missão"
Depois de um ano na Monusco, como o senhor avalia as conquistas da missão?
A principal conquista, desde junho do ano passado, foi exatamente a derrota do M23. Porque era um movimento rebelde, com uma história de crime muito grande, que estava colado na cidade. Todo o tempo havia aquele peso da invasão e de ataque aos campos de refugiados. A derrota do M23 significou o alívio da população de Goma, de mais de um milhão de habitantes. Na volta da cidade, na região de Kiwanja, Rutshuru e Bunagana, quase cem mil pessoas puderam voltar às suas residências e atividades agrícolas. E foi um orgulho para o Exército do Congo, porque eles são os principais atores, a ONU é um suporte.
E quais seriam os desafios políticos da Monusco?
Existe uma lista, mas eu diria que o grande desafio é mover todos os atores com a mesma intenção. Inclusive os internacionais. Precisaria haver um interesse político comum de realmente abafar o conflito e eliminar os grupos armados.Também teria que haver um trabalho muito sério de combate ao tráfico de armas no Congo. Porque tem muita gente importante envolvida, do contrário não haveria aquele volume de armamento e munição lá. Tem que ser feito um controle muito forte da exploração mineral e do comércio ilegal. Além de aumentar a presença do Estado e o combate à corrupção.
No início do ano houve um massacre em Masisi, perto de Goma, com 70 mortos. Um dos papeis da Monusco é proteger a população. O senhor acha que a missão conseguiu diminuir essas violações?
O Congo é um dos maiores países do mundo. Há problemas espalhados em uma distância de quase dois mil quilômetros. É impossível proteger todos os civis, o tempo todo, em todos os locais. Não são só esses massacres, há muitos outros, que nem são noticiados. Eles acontecem em lugares muito remotos.

DW.DE

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Fazendas de tabaco empregam crianças legalmente nos EUA

Crianças de 12 anos de idade estão sendo empregadas na colheita de tabaco em fazendas nos Estados Unidos, despertando críticas de ativistas que combatem o trabalho infantil.

Trabalho em fazenda de tabaco nos EUA. Foto: BBC
 Trabalho em fazenda de tabaco nos EUA. Foto: BBC

Ativistas não esperam que EUA mudem lei, mas pressionam fazendeiros. A prática é legal nos Estados Unidos - crianças podem trabalhar até 72 horas por semana, sempre fora do horário escolar.

No entanto, uma das crianças relatou à BBC ter trabalhado por períodos de até 14 horas em uma fazenda no Estado da Carolina do Norte. Outra reclamou que agentes químicos provocaram sensação de queimação no seu rosto.

Os fazendeiros defendem o trabalho infantil em suas fazendas. Eles dizem que as crianças trabalham com segurança e que isso é uma tradição que vem de várias gerações e que ajuda a ensinar responsabilidades.

Ativistas da Human Rights Watch dizem que os Estados Unidos aceitam práticas que não são toleradas, em princípio, por outros grandes países produtores de tabaco, como Brasil e Índia, que assinam convenções internacionais.

Eles têm poucas esperanças de que o país vá mudar suas leis, mas querem que os próprios fazendeiros alterem as suas práticas.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Dinamarca estabelece meta de energia 100% limpa até 2050

Pioneiro em mudanças na matriz energética, país pretende utilizar somente fontes de energia renováveis. Para especialistas, medidas adotadas pelo governo dinamarquês podem servir de modelo para outros países europeus.

Até 2050, a Dinamarca pretende produzir somente energia e calor limpos, eliminando as emissões de dióxido de carbono no setor. Para 2020, a meta é produzir cerca de 70% da energia a partir de fontes renováveis. Hoje, já são 43%.

"Atualmente, a energia renovável correspondente a 25% do consumo total de energia na Dinamarca", diz Kristoffer Böttzauw, vice-diretor da Agência de Energia Dinamarquesa, convencido de que é possível alcançar a meta prevista até 2050.

A Dinamarca é pioneira absoluta na União Europeia nesse setor, segundo Tobias Austrup, consultor político para mudança da matriz energética do Greenpeace na Alemanha. "Aqui fica claro ser possível que países europeus industrializados realizem uma verdadeira e rápida mudança energética", afirma.
Austrup vê a Dinamarca como modelo para a Europa. "Até a agora a mudança da matriz energética alemã, por exemplo, foi apenas no setor de energia elétrica", diz.

Segundo ele, há várias ideias dinamarquesas que poderiam ser implementadas na Europa: "A proibição do aquecimento com combustíveis fósseis e a ampliação da cogeração. Essas usinas são supereficientes. Elas utilizam o calor perdido na produção de energia elétrica para o aquecimento". Para Austrup, também é possível aprender sobre o uso de energia eólica com o país vizinho.

Parques offshore

Com 7.300 quilômetros de costa, as condições para a produção de energia eólica na Dinamarca são tão favoráveis como quase em nenhuma outra região europeia. O país fica entre dois mares – o do Norte e o Báltico – e, por isso, aposta na geração de energia eólica offshore, ou seja, no mar.

Um parque eólico com capacidade de geração de 600 megawatts está sendo construído na região de Kriegers Flak, no Mar Báltico. O parque é resultado de uma cooperação sueco-alemã-dinamarquesa e deve começar a produzir energia até 2020.

Na Dinamarca, moradores são indenizados por perda no valor de imóveis devido à instalação de turbinas eólicas

No ano passado, outro parque offshore com capacidade para a produção de 400 megawatts foi inaugurado próximo à ilha Anholt, situada no estreito de Kattegat, entre a Dinamarca e a Suécia. As turbinas eólicas foram fornecidas pela empresa alemã Siemens.

Entretanto, os parques offshore não são suficientes para alcançar a meta energética. Assim, usinas eólicas também estão sendo construídas em terra. No passado, iniciativas locais impediram a construção das cada vez maiores turbinas eólicas. Em 2008, o governo conseguiu o apoio da população com novas regras.
Primeiro, os moradores são indenizados diretamente, conta Böttzauw. Ou seja, quando uma casa perde valor imobiliário devido à instalação de uma turbina eólica, que pode ter até 150 metros de altura, a operadora precisa ressarcir o proprietário do imóvel por essa perda.

Além disso, pelo menos 20% dessa energia devem ser oferecidos localmente, possibilitando aos moradores uma participação direta no investimento. E há também um rateio por megawatt pago ao município, afirma Böttzauw. Por trazer vantagens diretas tanto para o município quanto para os moradores, a construção de turbinas eólicas passou a ser mais aceita pelas populações locais.

Transmissão e armazenagem

Na Dinamarca, o problema das linhas de transmissão foi resolvido com a construção de cabos subterrâneos. Böttzauw admite que a solução é cara, mas construir torres elétricas além das turbinas eólicas seria demais para a população. A energia elétrica produzida pelos parques offshore deverá ser distribuída pelo país por meio de três novas linhas de transmissão.


Carros elétricos podem ser usados para armazenar energia

Segundo Böttzauw, o grande problema da extinção de fontes energéticas de origem fóssil está no setor de transporte. Uma parte dele poderia ser solucionada com carros elétricos. "Não dá para decidir quando há vento. Mas veículos elétricos podem ser usados para armazenar o excesso de energia eólica", reforça. Quando há pouca energia, a rede geral pode ser alimentada com a energia armazenada na bateria dos carros.

A Dinamarca também investe em grandes aquecedores elétricos e bombas de calor. Assim, a energia eólica excedente é transformada em calor. "Quando há bastante vento, não existe energia mais barata que a eólica", completa Böttzauw.

E quando não há vento suficiente, talvez haja sol. Por isso, a Agência de Energia Dinamarquesa está investindo cada vez mais em energia solar. O resto da demanda de energia pode ser suprida com biomassa, somada à economia e à eficiência. Os dados da agência falam por si só: desde 1980, a economia no país cresceu 78%, mas o consumo de energia permaneceu quase o mesmo.

Cooperação com a China


Além da eólica, Dinamarca investe em energia solar

Na Dinamarca, o governo optou por um caminho diferente para rebater o argumento da falta de competitividade de fontes renováveis. As empresas recebem um subsídio se usam energia renovável e aumentam a eficiência energética. Em 2010, a tecnologia dinamarquesa no setor de energia representou cerca de 10% das exportações.

Para alcançar a liderança global nesse setor do futuro, o país investe em pesquisa e financiamentos para fontes renováveis, eficiência tecnológica e sistemas de aquecimento renováveis. Assim, entre 6 e 8 mil novos postos de trabalho deverão criados no país de 5,5 milhões de habitantes por ano.

A experiência do país escandinavo interessou até à China. Desde 2006, há uma cooperação intensiva entre esses dois países nesse setor, conta Böttzauw. Começou com energia eólica, e desde 2010 há um projeto conjunto para o desenvolvimento de fontes de energia renovável.

"A China tem um interesse grande nos nossos sistemas de aquecimento à distância e também em biomassa e parques eólicos offshore", diz Böttzauw. Os interesses econômicos são o ponto central da cooperação. "Nós fomos à China para ajudar a resolver os problemas energéticos e climáticos que acompanham o crescimento econômico."

fonte: DW 

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Bebê é acusado de homicídio no Paquistão

Não é a primeira vez que uma criança é acusada de cometer um crime no Paquistão, mas os poucos casos registados no país estão geralmente associados à alegada blasfémia ao Corão por menores. Desta vez, as autoridades paquistanesas acusaram um bebé de nove meses de tentativa de homicídio, tudo porque estava presente durante uma alegada agressão de familiares seus a funcionários de uma companhia de gás.

O caso remonta a Fevereiro deste ano mas só agora se tornou público devido à polémica que levantou a nível nacional e internacional. O incidente aconteceu num bairro pobre de Lahore, capital da província do Punjab, quando funcionários de uma companhia de gás tentaram cobrar o pagamento de contas em atraso a alguns moradores. Quando foi iniciado o corte de abastecimento por recusa em saldar as dívidas, alguns moradores apedrejaram os trabalhadores.

De acordo com o primeiro relatório da polícia de Lahore, cinco pessoas da família de Musa Khan, de nove meses, incluindo o seu pai e avô, foram identificadas e acusadas de tentativa de homicídio, incluindo a criança, contra funcionários da companhia de gás e dos polícias que estiveram no local.

O avô de Musa, Muhammad Yasin, contradiz a versão das autoridades. Citado pelo The Guardian, Yasin afirma que tudo se tratou de um protesto pacífico. “Havia apenas mulheres nas casas e estas resistiram ao corte do abastecimento [de gás]”, contou, admitindo que a estrada no local foi cortada e gritadas palavras de ordem contra a polícia.

O polícia que redigiu o relatório foi suspenso de funções e tem sido alvo de protestos civis paquistaneses e de pressão dos próprios colegas.

As primeiras imagens do bebé divulgadas pelos media paquistaneses e que agora chegaram a jornais internacionais são da última quinta-feira e mostram a criança antes de uma audiência em tribunal, a chorar, enquanto lhe são tiradas as impressões digitais, perante a indignação da família. “Ele nem sabe segurar no biberão, como pode apedrejar um polícia?”, questionou o avô de Musa. No mesmo dia, a família disse não saber se a criança seria levada de novo a tribunal, apesar de estar agendada uma nova audiência para dia 12 de Abril.

Família forçada a esconder bebé
Nesta terça-feira, Muhammad Yasin avançou que, devido a questões de segurança e à “pressão” da polícia, alvo de críticas, o bebé, que se encontra em liberdade, foi levado para os arredores de Faisalabad, a cerca de 180 quilómetros de Lahore. “Tivemos que nos mudar para um lugar secreto porque somos pobres e a polícia está fazer uma forte pressão sobre nós para manipular o caso”, acusou Yasin.

Além da suspensão de um polícia, foi ordenada a abertura de um inquérito e o juiz a quem foi atribuído o caso ordenou que as autoridades expliquem o que levou à acusação da família e do bebé.

O advogado da família, Irfan Sadiq Tarar, lembra que, com base na actual lei paquistanesa, uma criança com menos de sete anos não pode ser acusada de um crime. "O caso questiona a eficiência da polícia de Punjab”, considerou o advogado, segundo o Guardian.

O caso tem sido considerado ridículo e bizarro no Paquistão, país cujo sistema de justiça tem sido fortemente criticado devido a casos de acusações de crianças e à pronúncia de sentenças pesadas contra menores. No país, as autoridades são mesmo acusadas de redigirem queixas exageradas contra famílias pobres como forma de castigo colectivo.

Em Agosto de 2012, o Paquistão esteve no centro das atenções devido a um outro caso que envolvia uma menor de 14 anos. Rimsha Masih foi acusada de blasfémia contra o Corão, um crime cuja punição vai da prisão perpétua à pena de morte, e ficou detida. Páginas queimadas do livro sagrado foram encontradas na posse da menor, que vive em Mehrabad, um bairro cristão da cidade de Islamabad, rodeado pela maioria muçulmana.

Este terá sido um caso de tensão religiosa entre os muçulmanos e a minoria cristã, consideram as organizações não-governamentais no Paquistão. Semanas depois um imã foi acusado de ter sido ele próprio a colocar páginas queimadas do Corão entre os pertences da menina. A família de Rimsha teve de se esconder durante vários meses no Paquistão antes de conseguir fugir para o Canadá.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Até 2050, China se tornará potência militar comparável aos Estados Unidos

A China segue com sua corrida armamentista e até 2050 poderá rivalizar com os Estados Unidos no plano militar, afirma o relatório do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS, na sigla em inglês) publicado nesta quarta-feira (5). O estudo foi realizado para avaliar o equilíbrio de forças no mundo. 


O documento confirma a “dominação arrasadora” dos Estados Unidos, campeão mundial de despesas militares em 2013 com valores que ultrapassaram 600 bilhões de dólares. Mas o estudo do IISS confirma uma tendência marcante nos últimos anos: a subida da China no ranking mundial de investimentos em armamento.

Pequim já é responsável pelo segundo maior orçamento militar do planeta com gastos equivalentes a 112 bilhões de dólares. E, de acordo com o estudo, a China poderá se igualar aos Estados Unidos em despesas militares em seu orçamento até 2030, e no plano operacional até 2050.

“Os Estados Unidos continuam como potência mundial predominante e os únicos com meios de se deslocar com eficiência em diversas frentes”, destacam os especialistas do Instituto baseado em Londres. A China vai contar certamente com 3 porta-aviões até os próximos dez anos enquanto os Estados Unidos já têm 11, de propulsão nuclear, estimam os pesquisadores.

“Mas a China tem um programa de desenvolvimento que prevê rivalizar com a potência americana até 2050”, afirma Christian Le Mière, especialista de força naval e segurança marítima do Instituto.

Corrida perigosa

Estas projeções, no entanto, continuam “incertas” e condicionadas à manutenção de uma estabilidade interna e de um crescimento econômico forte do país, de “cerca de 10%”, alerta o IISS.

A China já gasta três vezes mais do que outro gigante asiático, a Índia, e mais que os seguintes vizinhos juntos: Japão, Coréia do Sul, Taiwan e Vietnã.

O avanço da China, que já ultrapassa a Rússia (68,2 milhões de dólares) e a Arábia Saudita (59,6 bilhões de dólares), estimula a corrida armamentista de todo o continente asiático, estimam os especialistas. Entre 2010 e 2013, a região registrou um aumento de investimentos militares de 11,6% (descontando a inflação), segundo o Instituto.

Na Europa, a crise e os programas de austeridade em diversos países, levaram a uma redução de gastos militares de 2,5% no mesmo período. O recuo é ilustrado pelo Reino Unido que figura no 5° lugar à frente da França.

Em seu relatório, o Instituto do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos revela uma preocupação com o avanço contínuo dos gastos dos países asiáticos e alerta para o risco de uma “escalada”.

O temor é justificado por tensões como nas relações entre China e Japão pela disputa de um arquipélago no Mar da China Oriental. As ilhas Senkaku, controladas pelos japoneses, são reivindicadas pelos chineses que as chamam de Diaoyu. “Conflitos territoriais, e principalmente marítimos, certamente são um catalisador da corrida armamentista na Ásia”, afirma Le Mière.

A Coréia do Norte é outro motivo de preocupação do Instituto. Apesar de que o estado precário da aviação norte-coreana não permita o lançamento de uma bomba nuclear sobre o Japão ou a Coréia do Sul, os especialistas não descartam uma missão nuclear suicida de Pyongyang com a ajuda de um submarino.

 fonte: RFI