Alberto Dines # editorial do Observatório da Imprensa na TV nº 649, exibido em 24/7/2012
Quando o Estado defende o bem-estar e a saúde do cidadão,
isso significa que o Estado está tutelando a sociedade? Será que os
ideólogos do mercado não conseguem distinguir a diferença entre defender
e tutelar?
A questão ganha evidência e relevância à medida em que as autoridades,
sobretudo as autoridades sanitárias, começam a coibir situações
abusivas. A grita começou quando a Anvisa proibiu a participação de
celebridades em anúncios e comerciais vendendo remédios. Os
“mercadistas” chiaram alegando que a proibição era um atentado à
liberdade de expressão. Atentado ao interesse público é ganhar dinheiro
incentivando a automedicação.
Em maio passado, o governo decidiu que supermercados e lojas de
conveniência não poderão mais vender medicamentos sem prescrição, como
acontecia até então. A indústria farmacêutica e os supermercados
protestaram, a mídia deu-lhes cobertura. As farmácias e entidades de
defesa do cidadão apoiaram a proibição.
Na semana passada, foi a vez da Anatel intervir no mercado de telefonia
móvel diante da avalanche de reclamações do cidadão-consumidor. A mídia
fez cara feia novamente, esquecida de que também é responsável por
anunciar produtos e serviços sem investigar a capacidade das empresas em
atender as promessas da publicidade.
Hoje, este Observatório da Imprensa enfrenta mais um assunto
tabu: a maciça propaganda de produtos alimentícios dirigida ao público
infanto-juvenil. A obesidade infantil é um problema seriíssimo em todo o
mundo desenvolvido, mas o tema foi embargado no congresso mundial sobre
tecnologia de alimentos que se realizará em agosto, em Foz do Iguaçu.
Razão do embargo: a discussão científica sobre obesidade infantil vai
prejudicar os apoios que a indústria de alimentos costuma oferecer para a
realização de congressos.
O que nos leva à questão final: quem está tutelando a cidadania – o Estado ou os interesses comerciais?
***
A mídia na semana
>> A história do Conselho de Comunicação Social tem um novo
capítulo e, como todos, protagonizado por José Sarney, presidente do
Senado, que trata o órgão como se fosse quintal da sua casa. O Conselho
demorou 14 anos para ser instalado porque o senador não gostava deste
dispositivo constitucional, foi desativado três anos depois e suspenso
mais três porque Sarney continuava não gostando da ideia. Agora o
Conselho foi restabelecido com nomes da preferência do senador e um dos
representantes da sociedade civil é o dileto assessor pessoal, Fernando
Mesquita, funcionário da Mesa do Senado. Pelo visto, o democrata Sarney,
ex-jornalista, não quer discussões sobre imprensa.
>> O Globo sairá na próxima semana com nova paginação e,
para comemorar, organizou um evento denominado “O papel do jornal”, com o
apoio de todos os concorrentes. Parabéns pelo reconhecimento tardio da
importância da mídia impressa. Até há pouco tempo as empresas
brasileiras de mídia festejavam o fim próximo da Era Gutenberg; agora,
felizmente, voltaram atrás. Um dia acabarão reconhecendo que jornalismo é
profissão e não mera ocupação.
>> O diário esportivo Lance! enviou dez jornalistas para
os Jogos Olímpicos de Londres. Eles ficarão responsáveis pela produção
do material para o jornal e para a web TV da empresa. Mas uma coluna
promete polêmica. É que nela vão estar críticas sobre a cobertura feita
por veículos brasileiros e pela mídia internacional. Como, neste caso,
todos têm teto de vidro, resta saber se a coluna também comentará
possíveis mancadas do próprio Lance!
>> “O sistema caiu”, “a ligação foi cortada”, ‘não estou
ouvindo”. Estes eram os bordões da revolução do celular no Brasil até
que a Anatel, agência reguladora da telefonia, resolveu acabar com os
abusos. Diversas operadoras foram proibidas de vender novas linhas
enquanto o atendimento não melhorar. A imprensa deveria aplaudir, já que
os celulares são os produtos mais anunciados nos jornais. Não aplaudiu,
fez cara feia, porque nossos jornalões detestam tudo o que lembra
regulação.
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